20, Janeiro 2019

[Fonte: Agricultura e Mar]

O estudo desenvolvido conclui, neste contexto, que a compreensão e a resposta portuguesa ao Brexit não se esgota no horizonte de Março de 2019, sobretudo, se, como tudo indica, existiram posições, recursos e capacidades específicas, resultantes do longo relacionamento entre Portugal e o RU, susceptíveis de permitir transformar em oportunidade nacionais, seja em desvio de comércio de bens e serviços, seja em mobilidade internacional de capital humano qualificado e altamente qualificado, seja em diversificação dos destinos e origens dos movimentos de investimento internacional e de intermediação económica associados à crescente globalização das cadeias de valor, os choques negativos do Brexit em outras economias europeias, incluindo a própria economia do Reino Unido.

O Brexit não acaba em Março de 2019, nem em 2021. A União Europeia e o Reino Unido terão, necessariamente, de prosseguir esforços convergentes na construção europeia que, pelo seu lado, tem pela frente múltiplos desafios e oportunidades, muitos deles não menos relevantes do que os agora colocados pelo Brexit.

As Regiões em risco

A análise realizada para avaliar os impactos potenciais ao nível regional permitiu identificar que as regiões que, face à sua especialização produtiva ao nível dos bens, enfrentam maiores riscos decorrentes do Brexit são o Alto Minho, Cávado, Ave e Tâmega e Sousa. Seguem-se as regiões de Terras de Trás os Montes, Área Metropolitana do Porto e Beiras e Serra da Estrela. Ao nível dos serviços, a Área Metropolitana de Lisboa, Algarve e Madeira são as regiões com maior exposição ao risco. A Área Metropolitana do Porto e a Região de Coimbra surgem também sinalizadas pelo exercício realizado.

Produtos em risco

Em termos de produtos, o estudo identifica como produtos com maior grau de risco associado ao Brexit os seguintes: produtos informáticos, electrónicos e ópticos; equipamento eléctrico; veículos automóveis, reboques e semi-reboques.

Num segundo nível e risco ainda médio alto destaca os produtos alimentares; bebidas; Produtos da indústria do tabaco; têxteis; artigos de vestuário; couro e produtos afins; papel e cartão e seus artigos; produtos farmacêuticos e preparações farmacêuticas de base; artigos de borracha e de matérias plásticas; outros produtos minerais não metálicos; metais de base; produtos metálicos transformados, excepto máquinas e equipamento; máquinas e equipamentos; e mobiliário.

Oportunidades

No entanto, diz o estudo, confrontando a análise dos riscos com as oportunidades é interessante verificar que, para dois dos produtos que enfrentam níveis de risco alto ou médio alto existem, no entanto, oportunidades que podem permitir compensar os referidos níveis de risco.

Estão nesta situação os produtos: veículos automóveis, reboques e semi-reboques; produtos farmacêuticos e preparações farmacêuticas de base que podem beneficiar da perda de posição concorrencial dos produtores britânicos no mercado Europeu para os substituir nesse mercado compensando assim parte dos riscos que enfrentam no mercado britânico.

Laços históricos

Para os autores do estudo, os laços históricos têm um potencial de mitigação das piores consequências do Brexit, que importa considerar e potenciar, seja permitindo a exploração de oportunidades de substituição da posição de outros Estados-membros da UE27 no mercado britânico no pós-Brexit, seja afirmando Portugal como o parceiro privilegiado do Reino Unido na UE27, os laços históricos poderão contribuir para que os efeitos positivos compensem ainda mesmo que só parcialmente, os riscos associados ao Brexit.

A capacidade de substituição de outros países enquanto fornecedores do Reino Unido no quadro da reconfiguração dos relacionamentos poderá permitir não só reduzir os riscos de desvio de comércio como potenciar mesmo a criação ou reforço de fluxos com destino ao Reino Unido.

A chefe do executivo britânico, Theresa May, conseguiu o apoio do seu governo ao acordo firmado com Bruxelas que define o enquadramento da futura relação entre o Reino Unido e a União Europeia. Apesar disso, o Brexit já deu sete demissões à primeira-ministra, que já chegou mesmo admitir que a saída da UE possa não acontecer, mesmo recusando um novo Referendo.

É neste contexto que o agriculturaemar.com relembra o mais recente estudo da CIP – Confederação Empresarial de Portugal, intitulado “Brexit: As Consequências para a Economia e para as Empresas Portuguesas”, apresentado no passado dia 31 de Outubro.

Efeito negativo de 15% nas exportações no cenário mais optimista

O estudo, promovido pela CIP e realizado pelos especialistas da Ernst & Young – Augusto Mateus & Associados, conclui que no cenário mais optimista, o Brexit terá um efeito negativo de 15% nas exportações portuguesas para o Reino Unido.

As perdas potenciais poderão, no entanto, chegar aos 26%, num cenário mais negativo, em que não exista qualquer acordo entre o Reino Unido e a União Europeia. No total, é estimado um impacto negativo entre 0,5% e 1% no PIB nacional.

A CIP tomou a iniciativa promover este estudo que contém uma análise aprofundada dos riscos envolvidos e dos diversos cenários que estão em cima da mesa, num momento em que se vive um clima de forte incerteza e de apreensão sobre a forma como o Brexit se materializará.

Dar a melhor resposta aos desafios do Brexit

O objectivo é capacitar as empresas portuguesas para darem a melhor resposta aos desafios que o Brexit coloca à nossa economia. Uma preocupação que se reveste de especial importância tendo em conta que o Reino Unido é o primeiro mercado de destino das exportações portuguesas de serviços e o quarto principal destino para as exportações portuguesas de bens.

“Este estudo vem preencher uma lacuna. Era importante dispormos de uma análise aprofundada para podermos fundamentar a nossa resposta ao desafio do Brexit. Estamos agora mais preparados para apoiar as empresas na gestão dos desafios que o Brexit coloca”, sublinhou António Saraiva, presidente da CIP.

Brexit será um processo assimétrico e de longa duração nas negociações, consequências e impactos.

Os resultados do estudo confirmam, em primeiro lugar, o processo do Brexit como um processo assimétrico, quer entre o Reino Unido e a União Europeia, quer no seio dos 27 parceiros que nela permanecem, e de longa duração, quer nas negociações envolvidas, quer nas respectivas consequências e impactos.

Estes mesmos resultados indicam que os efeitos de curto prazo serão sempre negativos, respondendo a formas e custos de desintegração económica, configurando um jogo em que todos perdem alguma coisa, sendo que os riscos destas consequências negativas para o nível de actividade económica, riqueza e emprego são muito mais elevados para o Reino Unido do que para a União Europeia no seu conjunto. Os mesmos resultados permitem, ainda, perspectivar a possibilidade de transformações estruturais quer no posicionamento do Reino Unido na globalização, quer na própria construção europeia, susceptíveis de mitigar e inverter as inevitáveis consequências negativas de curto prazo.

Brexit não acaba em Março de 2019, nem em 2021.

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